Review: Alfred Brendel - Schumann Fantasiestücke Op. 12 . Fantasie In C • C-dur Op. 17 (1982)

Posted by Rubens

 

História da Gravação 

Nos anos 80 a audiofilia estava migrando para o som digital que estava se desenvolvendo com a ascenção de novas técnicas de captura de som que dispensava as fitas magnéticas e convertia o som imediatamente em som digital por laser. Para a música clássica isso foi uma revolução, pois permitia pela primeira vez a reprodução de um som sem nenhum ruído de fundo, o silêncio absoluto, destacando apenas a sonoridade da música e trazendo novos detalhes a tona.

É nesse contexto que ouvimos o Brendel nesse CD, sua gravação desse recital de Schumann em 1982 é um dos primeiro a explorar as possibilidades dessa nova tecnologia, o que deve ter agradado muito Brendel que era extremamente meticuloso com suas gravações, trazendo uma equipe técnica extremamente qualificada para deixar a afinação do seu Steinway Model D perfeita.

Houve forte trabalho da equipe da Philips para evitar críticas de que o som digital seria frio e metálica, buscando uma captação de som que mostrasse o calor e a tonalidade do piano de Brendel. Escalado para a produção do projeto estava o lendário, Erik Smith, que tinha uma relação de profunda confiança com Brendel permitindo que cada detalhe da partitura, que era seguida meticulosamente pelo pianista, estivesse em destaque.

Alfred Brendel era um pianista intelectual que buscava em suas perfomances revelar a arquitetura interna das composições, para isso ele era um estudioso da partitura e da estrutura musical. Ao contrário de outros pianistas que gravavam em pequenos fragmentos, Brendel preferia fazer takes longos para manter a linha de pensamento musical.

Também diferente de outros pianistas, Brendel, abraçou com entusiasmo a nova tecnologia que permitia a emissão do som com maior pureza e permitia que ele injetasse o seu cantaible para as peças. Brendel, também se preocupou em garantir o foco no colorido sonoro a ser captado pelos gravadores.

A gravação ocorreu no Henry Wood Hall, uma antiga igreja convertida em estúdio e sala de ensaios. Este local é famoso pela sua acústica generosa mas controlada. Para Schumann, Brendel precisava de um espaço que permitisse que as harmonias "ressonassem" sem se tornarem uma massa sonora confusa. A escolha do local foi estratégica para captar a clareza intelectual que Brendel exigia.

 O Repertório

Brendel optou por abordar dois aspectos estruturais em Schumann a das miniaturas que ouvimos em Fantasiestücke e o macrocosmo monumental da Fantasia in C, dois pilares do universo de Schumann.

As oito peças que compõe Fatansiestücke foram compostas em 1837 sob inspiração dos contos de E.T.A. Hoffmann que se chamavam "Fantasy Pieces in the Manner of Calliot". Diferente de outras composições como o Carnaval e a Kreislana aqui temos peças que são contrastantes, não sujeitas a um ciclo pré-definido, funcionando como uma sequência livre de noturnos, scherzos... Todos abordando temas do conto.

Por essa razão, aqui temos um sample de liricismo, humor, nervosismo, sensiblidade e noite mal-assombradas. A própria composição que fecha esse ciclo "8. Ende vom Lied" contrasta, segundo Schumann, sinos de casamento e sinos de funebres.

A escolha dessa composição permite que Brendel exponha a dualidade da psique de Schumann, alternando entre seus dois alter egos Eusebius (O Sonhador) que podemos ver nas peças "1. Des Abends" e "3. Warum?" e Florestan em "2. Aufschwung" e "5. In der Nacht". Em rápida sintese, Florestan representa o lado impetuoso, apaixonado e heroico de Schumann, ao passo que Eusebius representa o lado sonhador, lírico e melancólico.

Fantasia in C, é considerada por muitos uma das maiores composições para piano solo que Schumann compôs, escrita em 1836, foi gravada em um período que ele estava impedido de ver sua amada, Clara Wieck, por proibição do seu pai, Schumann depois diria que o primeiro movimento era "o lamento mais profundo que já fiz por você".

Essa obra foi dedica a Franz Liszt anos depois, gesto que tocou muito o virtuoso pianista que considerava a peça de "um caráter tão elevado que é difícil de encontrar algo igual". Ele costumava tocá-la em privado, mas raramente em público, pois achava que o público comum da época não teria a profundidade necessária para entender tamanha introspecção.

Estruturalmente a peça busca romper com o modelo de sonata clássico, perceba que os três movimentos não usam as nomenclaturas clássicas como "Allegro, Adagio, Andante..." e sim nomes poéticos e a busca por romper com o dualismo existente nas sonatas. 

O primeiro movimento "9. I. Durchaus phantastisch und leidenschaftlich vorzutragen", como comentamos acima foi pensado para ser um lamento em relação a sua situação com a Clara, sendo uma explosão de desejo e desespero. Começa com uma mão esquerda inquieta e um tema descendente poderoso. A estrutura é de uma forma-sonata "desconstruída", terminando com a citação de Beethoven em um tom de resignação. 

Se o primeiro movimento mostrava Schumann em seu dualismo de Florestan apaixonado, o segundo é um contraste ao lamento, mostrando o Florestan triufante em um scherzo que basicamente é uma marcha heroica e que apresenta os momentos técnicos mais difíceis da obra como os saltos rápidos e à coda final (um stretto de oitavas) que exige uma precisão atlética. 

O terceiro movimento "11. III. Langsam getragen. Durchweg leise zu halten" não é o movimento que fecha de forma grandiosa, e sim uma exploração do lado sonhador do Eusebius, um movimento lento, etéreo e contemplativo. É uma das músicas mais sublimes já escritas, voltando ao tom de Dó Maior de forma pacífica, como uma aceitação do destino amoroso.

Minha análise

Alfred Brendel é um daqueles pianistas que possuem um olhar intelectual sob o repertório romântico, ainda que não seja um pianista analítico como Zimmerman ou técnico como Pollini, o que torna sua abordagem de Schumann bem interessante, dado que ambos (pianista e compositor) compartilham um fascínio por literatura e a psique humana. 

Essa abordagem desvia Schumann de uma abordagem virtuosística ou excessivamente sentimental e foca na psique e estrutura das músicas, algo que pode ser interpretado como frio analisando algumas intepretações, mas pode ser apreciado por destacar aspectos da própria composição, sem a distorção do colorido.

Sua abordagem de Fantasiestücke é a que mais me agrada, é a peça mais agradável do disco, as miniaturas permitem que o Brendel construa sua proposta de linguagem da melhor forma, em especial em destacar as vozes médias e baixas do piano e não focar apenas na melodia da mão direita, isso faz com que o som seja encorpado e cameral.

Vamos a um dos destaque que é a primeira peça "Des Abends" que traz o Eusebius, é uma música quase onírica e já mostra a qualidade da gravação digital, o som é puro e totalmente focado no piano, gosto de imaginar que é uma música que fala por si e a abordagem de Brendel ajudar a realçar isso.

Por essa contenção tendo a preferir sua abordagem de Eusebius, portanto outro destaque pra mim está em "Warum?", onde a abordagem estrutural e intelectual casa perfeitamente com o tom de dúvida persistente que a música evoca. Em Florestan, acho que seu aspecto humorístico é muito bem capturado por Brendel em "Grillen", Brendel adora esses momentos, também devo destacar que não é nada mal Ende vom Lied, a dualidade aqui está bem casada e Brendel consegue abordar bem os contrastes e humores da parte romântica e funebre da obra.

Eu creio que do ponto de vista do virtuosismo, Brendel não deve nada a seus contemporâneos como Martha Argerich e Horowitz, é uma técnica bastante competente e que consegue vencer facilmente desafios como In der Nacht e principalmente "7. Traumes Wirren", porém alguns podem sentir falta do fogo que esses outros dois trazem.

Sobre Fantasia C, o destaque absoluto é a sua abordagem do terceiro movimento, "11. Langsam Getragen. Durchweg Leise Zu Halten - Etwas Bewegter", que fecha o disco com chave de ouro, o lado Eusebius é o casamento perfeito com o estilo pianístico de Brendel com a composição de Schuman, trata-se de 10 minutos de pura beleza e aula de legato, que mantém sua tensão durante todo o período sem jamais perder, algo que é fisicamente impressionante.

Eu também acho que a abordagem do primeiro movimento é muito bem sucedida, porque explora o contraste romântico com aquela melodia triste de Beethoven que encerra, aspectos característicos que são muito bem captados pelo piano de Brendel, principalmente o dialogo "beethoviano", no qual ele é mestre.

O segundo movimento, "10. Mäßig. Durchaus Energisch - Etwas Langsamer - Viel Bewegter", se destaca pelo controle ritmico que Brendel apresenta, e como já falei, ele possui uma habilidade técnica que dá conta com precisão das dificuldades virtuosísticas, enquanto mantém a força percusiva.

Eu acho injusto rotular a interpretação de Brendel como fria, dado que sua sensibilidade literária e destaque estruturais permitam que a melodia flua naturalmente, destacando emoção e clareza. Aqui tem momentos da mais sublime beleza.

A qualidade da gravação é um ponto a destacar, a pureza do som que não é afetada por nenhum barulho externo realmente ajuda a destacar o lado estrutural de Brendel e impede que a música fique fria, é uma gravação perfeita para amantes do piano, pois este está bem posicionado e não soa excessivo. 

Legado e crítica 

 A opinião da crítica sobre essa gravação é difícil de encontrar, muitas não sobreviveram a era da internet e trata-se de um álbum fora do catalogo do Spotify, ainda que possa ser reconstituído através de faixas em diversas coletâneas.

A impressão que capto é que a gravação em áudio digital foi aprovada, com elogios a pureza do som e ao detalhamento técnico. Quanto a perfomance, a Gramophone destaca a nobreza que Brendel empresta a Schumann, mas discute se essa interpretação não é muito contida, o primeiro movimento da Fantasie in C é acusado disso, ao mesmo tempo que destaca a naturalidade e o fato de Brendel não forçar a música.

Alguns críticos mais conservadores, acostumados com as versões hiper-românticas de pianistas como Vladimir Horowitz ou Martha Argerich, acharam a versão de Brendel "fria" ou excessivamente controlada. No entanto, a maioria reconheceu que sua abordagem trazia uma nobreza à Fantasie Op. 17 que poucas vezes se ouvia.

Em relação a Fantasiestücke muito tiveram uma opinião positiva realçando que ali o projeto foi muito bem sucedido em balancear a música de Schumann e a abordagem do Brendel.

Em termos de legado, a gravação envelheceu bem, longe das comparações com seus pares muitos hoje aplaudem a  sensibilidade de Fantasiestücke e a abordagem mais intelectual e romanticamente contida da Fantasia ressoa melhor com a sensibilidade comntemporânea.

Esse álbum faz parte da extensa série de gravações de Schumann por Brendel na Philips (1970-1980s), que ajudou a solidificar sua reputação como um dos maiores intérpretes do repertório romântico alemão. Seu enfoque analítico influenciou gerações de pianistas, promovendo uma visão mais "estrutural" de Schumann, em contraste com abordagens mais viscerais. O legado inclui reedições contínuas (como em boxes completos da Philips/Decca) e menções em retrospectivas, como no The Guardian em 2025, que destaca Brendel por sua "rigorosidade intelectual, senso de lirismo e diversão" em obras semelhantes. 


 

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