Quando um Enfant Terrible curvou o mundo da música erudita - Ivo Pogorelich Ravel/Prokofiev (1983)
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Ivo Pogorelich é famoso pelo incidente da Competição de Chopin de 1980, onde seu estilo nada ortodoxo — mas cheio de imaginação e técnica — o levou a ser eliminado na terceira rodada, dividindo os críticos e gerando uma das médias ponderadas mais extremas da história. Do lado dos que o pontuaram alto estava a lendária pianista Martha Argerich, que saiu da comissão de jurados dizendo que Ivo Pogorelich era um gênio e que seus colegas estavam loucos.
Essa polêmica rendeu diversos frutos ao pianista, entre eles um contrato de exclusividade duradouro com a DG e o lançamento de um recital de Chopin muito bem-sucedido comercialmente, ainda que intrigasse os críticos. No entanto, o lançamento deste disco — um recital reunindo Gaspard de la Nuit, de Ravel, e a Sexta Sonata, de Prokofiev — foi o momento em que a crítica não conseguiu mais criticar o jovem pianista e teve que se render a ele e às suas excentricidades. Estamos falando de um disco que já nasceu como referência desde o berço.
É verdade que Pogorelich pode ser inusitado e nada convencional, mas uma coisa jamais poderia ser dita a seu respeito: a de que ele não comandava uma técnica assombrosa aliada a essa rebeldia. Ao tocar com liberdade dentro da partitura, Pogorelich conseguiu arrancar da peça uma tridimensionalidade invejável, que você não vai encontrar em outra gravação. Existe um caráter cinematográfico nessa performance — veja como ele retoma as rédeas no final de "Ondine".
É necessária muita sensibilidade para entregar uma performance como essa em "Le Gibet", uma peça extremamente difícil pelo controle rítmico e pela repetição obsessiva de uma nota. Pogorelich consegue repetir essa nota com uma força que dá a ela diferentes tonalidades, enquanto a mantém distante para que possamos ouvir os acordes ao redor.
Reza a lenda que Ravel desejou criar uma composição extremamente difícil com "Scarbo". No entanto, é aqui que a técnica absurda de Pogorelich se revela: depois da autocontenção e das atmosferas dos outros dois movimentos, ele revela uma velocidade e uma precisão absurdas para vencer todas as dificuldades da partitura, com uso mínimo do pedal de sustentação, o que dá uma clareza absoluta à sua interpretação.
É uma interpretação referencial tão grande para Ravel que muitos esquecem de comentar sua autoritativa interpretação para a Sexta Sonata para Piano de Prokofiev. Trata-se da primeira das três "Sonatas da Guerra" de Prokofiev, uma obra que precede por pouco a Segunda Guerra Mundial e reflete também sobre as purgas de Stalin na União Soviética. Esqueça o lirismo: o som aqui é mecânico, agressivo e trágico.
Uma das principais inovações aqui é a ideia de tocar com o punho fechado; é o tratamento do piano como um instrumento percussivo no lugar de um instrumento de cordas. Pogorelich é um pianista perfeito para esse papel, com suas interpretações de Chopin sempre marcadas por um lirismo irônico — como é o caso do seu último movimento para a Segunda Sonata de Chopin.
E lirismo irônico é o que não falta no primeiro movimento, marcado por articulações secas e rápidas e momentos de profundo peso, a começar pela abertura: quando uma melodia é criada, é apenas para ser rasgada na sequência. Essa mentalidade é perfeitamente encarnada por Pogorelich, pois seu estilo de tocar — brincando com ritmos e distorcendo velocidades — adequa-se bem às intenções do compositor. Para além disso, Pogorelich demonstra um domínio técnico invejável.
O sadismo de Prokofiev e sua afinidade com o estilo de Pogorelich podem ser sentidos na falsa marcha e na valsa que correspondem ao segundo e terceiro movimentos dessa sonata. São todas peças profundamente distorcidas e maliciosas. Pogorelich dá um tempo robótico que faz a marcha assumir um tom tétrico, onde sua técnica cirúrgica de staccato e o aparente desinteresse emocional dão a tônica.
Pogorelich é conhecido por, em certos momentos, tocar tão lentamente a ponto de quase arrebentar o fio musical — ouvintes de suas gravações de Tchaikovsky e Haydn vão se lembrar dessa característica. Logo, não surpreende como ele se encaixa perfeitamente no Tempo di valzer, lentissimo: não há abuso de pedal e o rubato é contido, o que dá ainda mais efeito ao clímax desse movimento, quando a valsa, já tétrica e arrastada, é brutalmente despedaçada.
A sonata termina com um movimento implacável que exige tudo do pianista. Pogorelich entrega velocidade e força sem nunca perder a separação clara de cada nota, ao mesmo tempo em que incorpora essa subjetividade maquínica em sua interpretação.
Esse recital sedimentou o nome de Pogorelich na história do pianismo e, hoje, ele é tratado como um ícone cult por parte do mundo do piano revolto com as convenções da precisão absoluta e com um universo de competições que confina a liberdade interpretativa.


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