A minha mais recente barganha foi essa gravação lendária de Karl Böhm comandando a Filarmônica de Viena nas duas últimas sinfonias de Mozart. Böhm é uma das maiores referências mozartianas do século XX, muito destacado por sua batuta em várias óperas de Mozart, sua carreira também é marcada por dois ciclos sinfônicos da obra mozartiana, o ciclo de Berlim gravado entre 1959 e 1968 que aborda todas as sinfonias e o ciclo vienense da decada de 70 quando patrono da respectiva orquestra, esse ciclo mais dedicado as sinfonias tardias como as que vemos nessa gravação.
Enquanto o ciclo de Berlim é marcado por uma sonoridade mais robusta e marcadas por uma arquitetura rigorosamente estruturada, o ciclo de Viena é marcado por rimos mais lentos, espaçosos e que apresentam maior claridade e leveza.
Existe aqui um maior senso de proporção e serenidade, Böhm não corre no 1º movimento da sinfonia nº 40, focando mais no peso das harmonias. Os andantes das duas sinfonias são obras prima no que se refere a qualidade do cantábile e no geral percebemos uma maior presença dos instrumentos de sopro em relação ao Ciclo de Berlim.
Em termos de espacialidade essa gravação se beneficia da locação em Großer Musikvereinssaal que possuia uma acústica superior, permitindo maior respiro para a sonoridade o que dá a claridade já mencionada. Para os fãs da HIP essa gravação não soará tão herética, pois o peso e o excesso de vibrato é muito mais comedido aqui e essas são as características que vão marcar gravações de instrumentos de epóca.
Talvez isso se deva a Orquestra de Viena em si que carrega em suas veias o idiomatismo de Mozart apresentando vibratos mais doces nas cordas e os instrumentos de madeiras eram fabricados na própria Austria.
Em termos de interpretação, Böhm, foge do sentimentalismo excessivo do período romântico e opta por uma postura mais contida e aristocrática, isso é típico das performances do pós-guerra, o que poderiamos chamar de performances pós-românticas. Elas ainda contém o frescor romântico, mas sem perder sua unidade estrutural, veja esse exemplo no primeiro movimento da Sinfonia 41 que soa monumental como deve ser.
Em termos de destaque, para além dos andantes que mencionamos, temos a famosa fugata final em que Mozart compôs 5 temas ao mesmo tempo e a interpretação de Karl Böhm permite que ouçamos cada uma deles individualmente, demonstrando maestria na polifonia como poucos.
Dentro da tradição do século XX sem instrumentos de epóca que dominaram as gravações da decada de 80 e 90 com a prática informada, essa é definitivamente a gravação de referência com alguns pares que espero trazer no futuro.


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