Chopin é um daqueles compositores considerado repertório obrigatório para todos os pianistas e acaba por essa razão atraindo diversas abordagens. Nós temos abordagens românticas e poéticas alá Cortot, o Chopin tísico do início do século XX, depois Rubinstein limpa os excessos e dá aristocracia a Chopin, criando um padrão ouro. Para muitos o auge do Chopin sem exageros seria Zimmerman e Pollini que tocavam Chopin com perfeição técnica e objetividade absolutamente.
Mas nada me prepararia para uma abordagem quase anti-lírica de Chopin completamente focada na arquitetura da música e na fluidez técnicas. Mas nós temos aqui esse exemplo, Alexis Weissenberg toca Chopin do jeito que Glenn Gould, autor da mais heterodoxa Sonata nº2, gosta. Na verdade, o próprio Gould teceu imensos elogios a forma de Weissenberg tocar, dizendo que geralmente só aguentava 20 minutos de Chopin ao ano, mas Weissenberg é a exceção.
Gould jamais gravou nenhum dos concertos de Chopin por conta do seu desprezo pela música do compositor, mas ouvindo essa gravação nós temos uma aproximação do que Gould consideraria ideal, ou seja, aquela precisão matemática, piano sem legato, rubatos mínimos e o piano soando quase como um cravo.
A única coisa ortodoxa é a orquestra de Stanislaw Skrowaczewski que toca de forma luxuosa dando todo valor a parte orquestral de Chopin, que não é muito destacada pela literatura. Vale destacar que esse é o mesmo maestro da lendária gravação do Concerto nº 1 em stereo por Arthur Rubinstein, repetindo aqui o bom desempenho.
Sobre a interpretação do pianista ao ouvir podemos ficar descrentes em como esse estilo pode ser possível. Chopin é o poeta do piano, rubato, legato e personalidade são coisas essenciais para um interprete do compositor, mas Weissenberg não tem nada disso, ele usa sua técnica profunda para desconstruir a peça e apresenta-la em sua arquitetura pura, tendo achar que isso da um tom meio rock n roll para a peça, mas é diferente de qualquer interpretação ortodoxa.
Essa abordagem é interessante para o primeiro movimento onde a música é bastante permeável a diferentes visões, sendo o caso daquelas músicas que são tão boas que despi-la de qualquer romantismo nos permite apreciar a música pela pureza da partitura. No entanto, o segundo movimento que é o coração da peça, o famoso Romance-Larghetto, soa como nunca antes, há uma clareza e espacialidade puras, mas ao mesmo tempo o som é cru, percussivo e sem cantaible.
Sem dúvidas se trata de uma das performances mais heterodoxas que já ouvi, pois não é fácil tocar dessa forma sem a música literalmente morrer, mas ela sobrevive porque há um tratamento rigoroso da estrutura musical do Romance, porém se você espera um som emocionante e lírico vai se assustar.
Essa impressão que tenho é compartilhada por muitas pessoas que analisaram essa gravação. No Musicweb o revisor, Stephen Francis Vasta, faz a seguinte análise:
"Weissenberg plays as if oblivious to any expressive potential inherent in the notes beyond their mere realization. He serves up cascades of notes, each with pingy articulation, in the filigree, loudly or softly as the score prescribes, but without any sense of impulse, so they sound unmotivated. He makes deep, imposing sounds at the climaxes - where lighter-weight players strain - but the chords can be harsh to the point of clangor."
Outro crítico ferrenho dessa performance é Jed Distler, que no famoso Classic Today deu uma nota 3 para a performance de Weissenberg:
"Weissenberg not only scrubs the aforementioned cobwebs clean, but also rubs out the music’s poetry, bel canto syntax, and lyrical implications. He reduces Chopin’s dynamic spectrum to three or four shades of loud."
No entanto, nem todos são críticos, como falei inicialmente Glenn Gould é o maior defensor dessa performance tendo defendido nos seguintes termos:
"SEVEN OR EIGHT YEARS AGO I was listening to the radio one night, twiddling the dial and, at about 3 a.m. encountered the Chopin Piano Concerto in E Minor. I chanced upon it midway through the first movement and had no idea who was playing. I only knew that I couldn't consider going to sleep until I found out. Now. twenty-five or thirty minutes of Chopin is usually my quota for any given year, but what I heard on that occasion was a performance so incisively detailed, so radically unlike any Chopin playing I'd ever encountered before (except perhaps in my imagination) that I subsequently listened to the disc in question on at least three or four more occasions during the ensuing twelve months. Well, the pianist's name, of course, was Alexis Weissenberg"
(...)
"I think one of the things that makes Weissenberg's performance of Romantic music so extraordinary is that, unlike almost any other pianist who essays this repertoire, he performs it with an essentially classical technical attitude. The Bach-like precision of his rhythm, the Mozartean clarity of line, the almost harpsichordally registered dynamic relationships in which fortissimos and pianissimos are graded as precisely as one could wish in a Clementi sonata — all these attributes are normally associated with the interpretation of eighteenth-century rather than nineteenth-century music.
Eu acredito que essas reflexões ajudam muito na análise dessa gravação do 1º concerto para piano de Chopin, pois sem dúvidas Distler e Vastas estão certos sobre a falta de lirismo e preocupação com a intenção expressiva de Chopin, de modo que essa gravação não é a mais indicada para pessoas que querem conhecer Chopin e nessa pegada todos ficariam mais satisfeitos ouvindo Zimmerman tocar.
Porém os apontamentos de Glenn Gould nos ajudam a notar as valiosas contribuições que Weissenberg nos traz ao tocar dessa forma clássica e ao mesmo tempo influenciado pelo hapscordismo de uma Wanda Landowska. Essa abordagem faz com que a música ganhe clareza, precisão e ritmo que destacam sua arquitetura interna, ainda que de forma radical. Preciso acrescentar que essa abordagem não funcionaria caso Weissenberg não fosse extremamente técnico e habilidoso, sua forma de abordar com brilhantismo todas as firulas que Chopin coloca na partitura é que o mantém a música viva diante da ausência de romantismo.
Desse modo minha conclusão sobre a gravação é que Weissenberg enriquece nosso entendimento sobre a musicalidade de Chopin, depois de ouvir o som desnudo é extremamente prazeroso voltar a interpretações mais tradicionais, como uma que adoro da Davidovich pela Melodya remasterizada em 2018, que prima pelo lirismo e cantaible, e foi um belo refresco depois de ouvir essa gravação.
Música clássica se constrói pela repetição e comparação de grandes gravações e é importante que respeitemos a heterodoxia e interpretações não convencionais quando a visão do interprete é expressa de forma clara e competente, como é o presente caso.
No entanto, a EMI nessa remasterização incluiu também alguns bônus extras como o Andante Spianato Et Grande Polonaise e o pouco apreciado Variations Sur "La Ci Darem la Mano" que não são comumente abordadas, eu por exemplo tenho como referencias nessas peças Claudio Arrau e o registro recente de Jan Lisiecki dedicado a peças sinfônicas de Chopin.
Acho que muitas das observações sobre o concerto se adequam bem aqui, o Andante é tocado com objetividade técnica e brilho inquestionável, mas falta o peso e emoção de Arrau e o lirismo apaixonante de Lisiecki. Na Polonaise, a abordagem é mais agradável, com Weissenberg queimando sua técnica e tocando com precisão, e tenho a impressão que nos movimentos rápidos a orquestra parece sempre jogar a favor do interprete.
Em relação as variações, eu confesso que não achei nada de mais, variações precisam de mais envolvimento emocional do interprete para consigamos diferenciar o caráter delas e a abordagem de Weissenberg não funciona para elas, salvando apenas a técnica colossal. As variações que Chopin propõe exigem um piano com cantaible, até porque são variações sobre um tema operístico, e isso é a antítese da proposta de Weissenberg.
O som tem bastante qualidade e clareza, porém a mixagem da EMI não é sem falhas noto que no primeiro movimento houve problemas na mixagem do volume do som que fazem com que a percepção de velocidade sonora seja prejudicada em detrimento da interpretação de Weissenberg, situação que volta a se repetir em uma das variações. Esses problemas, no entanto, são bastante pontuais e no geral destacam o sucesso na digitalização da gravação.


