Montserrat Caballé - Puccini (1970)

Posted by Rubens

 


Encontrei esse recital em um sebo por cinco reais e achei bastante intrigante a existência dessa gravação. Todos sabem que Caballé representa uma segunda geração de sopranos a resgatar o repertório belcantista depois de Maria Callas na década de 50; outro de seus talentos é Verdi, no qual brilhou em papéis pesados e na Aida.

Porém, de cabeça, para intérpretes de Puccini, confesso que o nome da soprano catalã não é um dos primeiros que me vem à mente. No entanto, essa minha desconfiança cai por terra no início de "Signore, ascolta!", de Turandot. Aqui temos uma pureza de emissão fascinante: a voz está no auge do seu frescor, fechando com um pianissimo sustentado de forma bela. Não fica atrás também o seu "Tu che di gel sei cinta", no qual ela convém uma melancolia que funciona bem com o veludo de sua voz — essa é uma ária que exige um controle de legato perfeito, tecnicalidades que Caballé entrega sem dificuldades. Não deveria ficar surpreso, uma vez que ela é a Liù da gravação lendária da Decca com Sutherland.

Em Madama Butterfly, não sendo a minha escolha ideal, não dá para negar o belo canto: a sustentação das notas e o belo fiato são suficientes para entreter, mas creio faltar um frescor e uma atitude mais girlish que encontro em Freni, De los Angeles e Gheorghiu; a voz soa pesada para a personagem. Talvez esse peso ajude na ária de seppuku que encerra a ópera, onde a entonação é tão importante quanto a caracterização. Se no começo da ópera Butterfly é ingênua, nesse final de ópera ela compreende perfeitamente o golpe que sofreu e a natureza de Pinkerton.

Mantendo o peso dramático, Manon Lescaut é um dos papéis mais sofridos já escritos por Puccini, principalmente os atos finais abordados nesse recital. A interpretação de Caballé empresta bastante aristocracia e delicadeza para essa personagem; o canto é belíssimo, deixando pouco a desejar para uma Renata Tebaldi e Anna Netrebko, mas para uma voltagem dramática mais arrebatadora busque Maria Callas. No entanto, é importante notar o ataque que Caballé faz na ária final dessa ópera, onde ela acompanha a orquestra em sua intensidade com sua voz gigante.

Não é surpresa para ninguém que a Caballé não tem dificuldade nenhuma com a ária da Lauretta, servindo apenas como um bombom musical na aveludada voz de Caballé. O prato principal acaba sendo a ária de Tosca, "Vissi d'arte". A própria Caballé é uma das lendárias intérpretes da personagem, entregando uma gravação de referência com Colin Davis em 1975 pela Philips. Acho que, a nível interpretativo, estaria no meio de uma Tosca de salão de luxo como a Tebaldi e a diva encarnada de Maria Callas: a caracterização é perfeita, aristocrática na medida, e o canto é de uma beleza celestial; os agudos se desmancham em lindíssimos pianissimos.

Para mim, a voz é definitivamente muito pesada para a pueril Mimì de La Bohème, mas, como ressaltei, são momentos em que cantar bem e bonito acaba sendo tão importante quanto a caracterização, e a ária inicial de Mimì oferece vários momentos de resplendor vocal. "Donde lieta usci" costuma beneficiar vozes mais cheias e escuras, e aqui acho que a interpretação está mais condizente com a personagem.

O recital traz duas árias menos interpretadas, de Le Villi e La Rondine. Em relação à primeira, o canto é luxuoso e muito convincente emocionalmente — eu gosto especialmente do belíssimo italiano, que já é uma qualidade do disco todo. A ária de La Rondine é uma das minhas paixões recentes, tendo-a ouvido em um belo recital tardio da carreira de Renata Tebaldi, o qual merece um post próprio. Caballé, no auge da sua forma, entrega uma abordagem igualmente opulenta, só que explorando o fio mais agudo da sua voz de forma impressionante; em alguns momentos, a voz parece entrar em um plano etéreo.

Em relação à gravação, por ser analógica, em alguns momentos você ouve sons de passos e esbarrões no microfone, mas a bela condução de Mackerras, que é muito generoso com a Caballé, é um dos destaques desse belo recital.

No cômputo geral, trata-se de um belíssimo recital de Puccini que, apesar de por vezes esquecido pelas grandes listas de referências, merece ser redescoberto e celebrado por qualquer amante do compositor italiano.
 
 
 

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